O Frenesi do E-consumo e a seleta coletiva musical

Vai entender o tal do ser humano… Especialmente este mutante que palmilha as infovias digitais. Uma pesquisa divulgada esta semana destrincha o hábito de comprar pela Internet. Mostra que o brasileiro, aderente a novidades como é, já exercita freneticamente o consumo via rede.

E, ano após ano, dá músculos a um mercado de gente grande e sarada! Só em 2007, o chamado e-commerce aumentou 43% no Brasil. Movimentou nada menos que R$ 6,3 bilhões – quase um sexto deste volume, no entorno do Natal…

O inusitado está no setor que lidera as vendas: cerca de duas de cada dez operações de comércio eletrônico giram em torno da compra de livros, jornais ou revistas. De outro modo: o mesmo cara que navega [lépido e faceiro, com desenvoltura] pelos sites de compra [e que, supostamente, deve dominar ferramentas de pesquisa e comparação de preços] não tem paciência pra ler um texto no computador.

Ok, vá lá: um livro é um livro. E não é a velha guarda [ou, digamos, a faixa mais “madura”, de vida econômica estável, principal compradora de livros no picadinho] que vai puxar a fila da leitura online de fôlego. Estamos falando aqui da elite do país. Uma parcela considerável da população bem nutrida e com [alguma…] autonomia de pensamento. Mas o hábito [este senhor de engenho] ainda conduz as marionetes sob açoite. [E, afinal, esse mundo tá virado…]

O estudo é da e-bit. E mostra com clareza que a credibilidade da compra on-line aumenta progressivamente. Basta notar que o volume de vendas, em bilhões, é hoje 11,6 vezes superior ao de 2001, quando o levantamento começou a ser feito. No ano em que o bolo cresceu menos, de 2002 para 2003, ele fermentou a uma razão de 39%. O que não é de se desconsiderar em nenhum setor da economia.

Há hoje 40 milhões de brasileiros na Internet. Um em cada quatro abre suas carteiras digitalmente. E é aí que eu queria chegar. Se o comércio eletrônico é fato e é certo que o brasileiro gosta de música, o que falta para as duas coisas se encontrarem na rede?

Sim, claro: a livre circulação de músicas pela web [da qual sou veemente defensor] impacta as vendas, evidentemente. Mas não parece um contrasenso imaginar que o cidadão que baixa faixas de um disco gratuitamente prefere pagar para ler o jornal, quando poderia fazer isso on-line?

Há, certamente, um fator que pesa aqui: o da faixa etária [que, neste caso, transborda para a questão financeira]: o perfil do consumidor de música médio é notoriamente mais jovem que o do leitor mundo afora. Significa que não necessariamente estamos falando do mesmo dito cujo.

Ok. Mas mais uma vez o hábito [agravado, aqui, pelo modelo viciado do jabá] desequilibra. A venda digital de música, faixa a faixa, ainda é tímida no Brasil – mas também não consta que haja venda de crônicas em unidades ou de romances em capítulos. O mercado cultural que vinga na net ainda é o dos “empacotados”. E, na seara da música, o de CDs e DVDs já é, sem dúvida, bastante expressivo.

O problema, nestas plagas, é que o efeito cauda longa [da compra pulverizadíssima, em que uma multidão vende pouco mas, no conjunto, gera volume] não impacta a venda física [do objeto] pela rede. Ou seja: quem vende disco [essa coisa de pegar com a mão] pela Internet é o mesmo artista que vende nas lojas – aquele que, “coincidentemente”, está bombado nas rádio e TV. [Mas eu já tratei disso por aqui, tempos atrás. E apenas repiso o mote para tomar impulso e saltar adiante.]

Sem iTunes no Brasil, o meio musical e os homens de mídia ainda não conseguiram dar respostas consistentes sobre como lidar com a venda digital fracionada.

Nem a guerrilha brancaleone [casos da loja virtual iMusica ou da distribuidora Tratore, que mantém convênios com agregadores e distribuidores digitais no Brasil e fora], nem os serviços musicais de portais super acessados [Uol Música ou Sonora, no Terra] conseguiram se posicionar de forma marcante, a ponto de fazer diferença.

E onde, pois pois, estará o ponto de virada? Quem, raios, um dia fará de fato uma seleta coletiva musical pautada na invenção e na originalidade e porá isso na ordem do dia da mídia de massa [um pouco além do anúncio em caixa de pizza, plis…?] Como isso pode virar dinheiro a ponto de permitir que o músico de fora dos circuitos de badalação atinja sua grande utopia: a de viver do seu trabalho?

Fonte: O Tempo

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